quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Homenagem à Realidade - Cruzeiro Seixas

No post sobre literatura e TV coloquei um trecho do programa Provocações em que Antônio Abujamra recita um poema de Cruzeiro Seixas.

Achei fantástico e a partir daí procurei ter contato com alguma obra desse poeta e pintor surrealista português.

A única publicação que encontrei à venda foi “Homenagem à realidade”, lançada pela editora Escrituras, onde coincidentemente tem o poema recitado no programa.

O livro nos presenteia não só com poesias de Seixas como também com suas gravuras, dando-nos uma ideia mais ampla do que se passa nessa mente fervilhante!

Seus escritos, assim como sua produção visual, têm forte característica surrealista que nos surpreende em um trecho ou em outro. Digo isso porque, apesar dessa característica, não é uma leitura indecifrável.

Como acho difícil comentar poemas, deixo abaixo alguns trechos encontrados no livro.

Estamos a um dia do fim de qualquer coisa.
Pela mão que guardo em todos os peitos
pelo contínuo marulhar da solidão na minha fronte
por esta maresia que vinda do sonho
sobe e sufoca
pela noite que se exprime no mais profundo de cada dia
ofereço-te a eternidade
como um trapo velho dentro de mim.
Todos os comboios atravessam o meu corpo
todos os diamantes se suicidam à minha porta
todas as mãos têm movimentos copiados do mar.
Ao meu lado sobre mim dentro de mim
como ao fim das tardes no inferno
o segredo que a sete chaves guardamos
passam-no agora as árvores em voz baixa umas às outras.
Oh meu amor o fim não existe tudo é recomeço
e tudo recomeça pelo fim.
Não esqueças esses momentos de transgressão
mais vida do que a vida
como o cavalo que corre dentro de si próprio
cego
até ao infinito que não há.






Quereria confessar-te
tudo o que tenho e o que não tenho
mas nem sequer sei se ainda estou vivo
depois de tantos naufrágios.
Duvido daquilo que vejo
cercado como estou por relógios
tão efêmeros como as nuvens.
Os meus olhos
Já não acreditam no mar que refletem.
Os ombros ficaram lá para trás.
O nevoeiro oculta por completo
aquilo que já dificilmente era visível.
E é em vão que as unhas ferem o espaço.
Os labirintos têm agora
setas indicadoras do sentido do trânsito
e há em todos os recantos
abandonadas gargalhadas obscenas.
Há um verso que se esqueceu do seu próprio leito
e que é uma terrível ameaça às gaivotas.
Estes dias não são convincentes!
Olha meu amor os insetos
e o pouco espaço dado ao luar.
As palavras
são tomadas do tremor dos grandes momentos.
Algures um grão de areia procurou outro grão de areia
e ninguém escreveu a sua história.
Os manuscritos são levados pelo vento
para países de analfabetos.
Um gato e um cão fazem amor
e um dinossauro olha-os do fundo e seus preconceitos morais.
Estamos no princípio ou no fim?
Essa mão é a minha ou é a tua?
O espelho caiu
levando a tua imagem.




Um comentário:

  1. MD! ("muito doido", lembra? *hah)
    Como os portugueses gostam do mar...

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